— Dê cá mãe, que eu arranjo, a sala de mobiliário pesado respirava com dificuldade. As cortinas, que se fizeram amarelecidas com o tempo, turvavam a luz que caía sobre a mesa de jantar. Redonda e em pau-preto, levava no centro uma jarra de flores secas misturadas com centeio ressequido. O homem, sentado à mesa numa das cadeiras de palhinha, aprendera desde cedo a equilibrar o peso do seu corpo; as pernas entreabertas procuravam a solidez da madeira, tentando aliviar o esforço da palhinha. Ocupava pouco espaço, o homem, que mesmo ao tornar-se no único morador daquela casa, evitava a cabeceira da mesa, onde pai e mãe se sentaram há mais de vinte anos atrás. Nunca conhecera mulher.
Das crianças, do irmão que as tivera, guardava a ideia de demorarem demasiado tempo a crescer. O que o aborrecia fatalmente e, embora nunca se tivesse esquecido do seu lugar à mesa, a infância era-lhe coisa longínqua. Como um espaço inabitado de memórias a quem só as marcas na cadeira lembravam que também ele havia crescido e pesado sobre ali. O peso era coisa que o atemorizava. Na rua, quando saía, caminhava sempre junto aos canos de queda de água, fazendo-se tão próximo que, não raras vezes lhe chovera no ombro, mesmo quando em toda a rua fazia sol. Uma nuvem privada que só a ele seguia, a quota parte de mundo a que encontrava destinado. O que não lhe desagradava, por saber que é nos cantos das ruas, junto às dobras das fachadas, que se encontravam os restos da passagem dos transeuntes.
Achava graça: moedas pequenas, botões, páginas de agenda, talões. Tudo o que de diário ali passava e que a rua guardava para si como memória de que também ela respirara. Sim, respirara, porque à noite, parecia ao homem, a rua escurecida e esquecida dos passos que a encontravam e deixavam, era sufocada por sonhos malévolos de quem dela fazia alcova, pedintes e prostitutas; deles fugiria caso os encontrasse, por serem conhecidos pelo saque das pequenas coisas da rua. Por isso, e temendo que a rua perdesse a sua idade, guardava-lhe as coisas que lhe encontrava junto aos canos para, dia após dia, as devolver.
Aprendera-o com sua mãe que, com a velhice, se esquecera de muitos nomes. Ouvindo-a com atenção, guardava-lhos na sobra de papel do guardanapo para, na tarde seguinte, à hora do chá, que era a hora da mãe, quando era hábito milenar ouvir-se o que a mãe dizia, lhos recitar, um por um, devolvendo-lhos e levando-os de novo no bolso do casaco mal ela os perdesse. Era um coleccionador. Das coisas que trazia da rua, nunca se esquecia. Quem o via tomava-o por louco, que o era de facto, os hábitos a que se prestara durante todas as décadas que observara da janela do seu quarto mantinham-se vivos, mesmo quando os sabia em desuso. Por exemplo, quando o dente da frente da dentadura de sua mãe se tomava de humores vespertinos, deambulando sozinho entre a falsa gengiva e o lábio inferior, sem contudo se despegar totalmente, — Dê cá mãe, que eu arranjo, dizia, pegando na pinça com que o domesticava, restituindo, à boca materna, o equilíbrio sóbrio com que sempre o habituara. Mesmo depois de morta, a dentadura, que não fora com ela na urna por não ser dos mortos sorrir com os dentes todos, todas as tardes, às seis horas o homem de lugar fixo à mesa devolvia ao equilíbrio o dente que sem uso já não dançava.
A mãe dissera-lhe certa vez que talvez fosse do chá. À hora do chá, o dente falso inflamando-se de dor como que se queimando na água que tinha a mesma cor das cortinas da sala. Falava sozinho, embora não o fizesse sozinho; o dente, que o ouvia, revelara-se segura companhia, seguindo-o por todas as divisões, guardando-se do frio no forro do bolso do casaco de benzina. Levava-o a passear todos os dias, mostrando-lhe as ruas e as outras coisas que, como ele, deixavam de ter utilidade para as gentes que por ali passavam. O abandono do que é pequeno parecia-lhe criminoso, sentia-o como uma falta de domínio público, um delito apenas punível se fosse possível fazer de objectos as pessoas — pensamento este que tinha no dente devoto apoiante. A mulher que atira o talão das compras antes de entrar na porta do prédio deveria ser transformada em papel: os lábios, os olhos, o nariz e a boca apagados, esfumando-se na densidade frágil de uma folha tão doce que apenas as letras palidamente tingidas lhe poderiam fazer a vez das feições. O rapaz que deixava a beata de cigarro junto à boca do cano de queda, estreitando-se, o corpo encurvando-se num cilindro queimado pela chama, como o coto de uma perna gigante, mas sem guerra, pior do que sem guerra, sem razão: uma simples casualidade da vida, que o faria tão sem sentido como aquilo que abandonava. As velhas a quem os botões dos casacos caíam, desfalecendo à luz do sol, tornando-se cheias e vermelhas, no lugar dos dois olhos duas cavidades atravessadas por uma réstia de fio, para sempre desterradas de suas casas. Sim, parecia-lhe justo: que cada um se tornasse naquilo que abandonasse. E embora fossem da rua estas memórias que deviam ser conservadas, as gentes deviam às ruas, às pedras, mais do que o gesto de quem deixa tombar: dessem-lhes flores ou coisas preciosas, como dentes postiços que lavraram em anos idos palavras como as de sua mãe.
- Nunca se esqueça do seu lugar à mesa, e o valor das letras que se faziam tombar como a cera das velas que lhes alumiaram tantos jantares. A felicidade que nisto tinha era paralela ao desdém de seu irmão, que achara a mãe fria como chá que, ao ser esquecido, se torna amargo no fim da boca. Nunca entendera porque o dizia. A mãe quente de dente trémulo, chorando de mãos cruzadas sobre o colo (como uma senhora, só os tornozelos cruzando-se, para não enrugar a saia da mesma cor que o chá) — o meu irmão nunca me vem ver. Esquecendo o nome do filho, tomando-o por seu irmão, o homem anotando no papel o nome do seu irmão e o nome do irmão da mãe para lho dar no dia seguinte, fazendo de seu irmão também, e ele juntando nos braços a mãe e a irmã, que nunca teve. O dente que, do forro do casaco, lhe lembrava — Nunca se esqueça do seu lugar à mesa, dava-lhe conforto pela forma como se moldara em boca materna, como se levasse ali parte da língua com que sua mãe lhe falava. Só isso lhe restara: passear a única boca que gostara de ouvir. Para que ela não se esquecesse das palavras que lhe deixara.
Até ao dia em que, ao passeá-lo na palma da mão, o deixara tombar junto à boca de um cano. Deitara-se no chão, com a cabeça entre o espaço que ia do fim do cano ao buraco na via, a queda de água cedendo; e não se sabe como aconteceu, uma parte desligando-se do resto, que os canos por serem altos se fazem de muitos canos enroscados, batendo-lhe um pouco acima da nuca, o rosto chegando-se ao cimento, a cana do nariz rasgando-se e os dentes quebrando-se como se, por instantes, engolisse parte da rua. Não morreu. Nem morreria de tão estranho acidente, sem os dois dentes da frente ou o de sua mãe, Albino Bemjesu. Dedicaria o resto da sua vida a tapar os buracos da via pública. Fazendo com que o choro dos canos, ao ser largado, lavasse a sujidade das estradas que, com o tempo, parecia desfazerem-se num rio de chá frio.