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Há mortos que vêm jantar. Trazendo uma rigidez que rivaliza com a inflexibilidade do couro mais gasto deste século. É das cadeiras este cheiro a pele cosida, a linha invisível que só na minha imaginação une as costas ao fim dos pés. A minha cabeça não conhece fim. E se me perguntas porque me pesam as faltas digo-te: – não há fim. Mesmo quando a rua é uma linha estreita que se acaba ao acabar-se o alcatrão. Trago três ou quatro mortos comigo para me matarem a fome a terra. Quando se acaba o alcatrão e começa a estrada de pedra que me leva a casa, a minha cabeça não acaba, e continuam as cadeiras de couro cosido, as horas maiores que o meu peito: não há boas novas, terra à vista, só esta vertigem de varanda paterna que decalquei para a minha mãe que tem medo de alturas.

Sou um terço de janela e nenhuma parte de pai ou mãe: antes de madrugada, de cisnes que acabam o verão de pescoço ou asas nas presas de um ou dois cães vadios. O massacre dos patos, dos cisnes e dos gansos, à laia da má vontade de outros bichos é coisa que há muito se conta e, quando nesta casa não se dorme, diz-se que são os pássaros que batem asas do lado de fora da noite, que é como quem diz, o céu cosido e a lua, as estrelas, olhando as casas do outro lado do tecido. Não há espelhos. Só a ideia cósmica de lençol que tapa o corpo a toda a terra.

Havia quem contasse, nesta casa, que os mortos são sombras de chamas acesas que, se as olharmos com atenção, ainda lhes ouvimos o bater de asas noite fora. Só penas e outras noções vagas do coração. Igual ao da estátua que o leva na mão direita parado, à hora de todos os lugares ocupados, sem olhos e de nuca vazia, servindo de entrada à lua que, do outro lado da janela, nos controla os movimentos das asas e das sombras que nunca faltam ao jantar.


Problema

O problema dos outros, dizia-te eu, é que morrem todos os dias.

Tenho o bilhete na mão, caso chegue o fiscal e me queira testar o cartão. Irrita-me quando o fazem: o ar descontraído com que desconfiam das viagens que eu paguei. Não perguntam nada. A gente espera-os, com o bilhete em lugar de fácil acesso, porque não gostamos de os fazer esperar. Talvez devêssemos fazê-lo, guardá-lo no sítio mais secreto da nossa roupa ou da nossa mala, demorando-nos, demorando-os, até que se irritassem tanto quanto nós ao vê-los de máquina na mão verificando o que há de criminoso nas viagens que fazemos. Três raparigas bebem ao meu lado. Trazem três garrafas pequenas e outra de meio litro, todas com o rótulo de água de Penacova, e nenhuma com água. Passa-lhes um preto com sede, riem e dizem que não é água enquanto continuam a segurar os telemóveis e as garrafas. Pedem-lhe que se sirva, e o preto serve-se de gin levando-lhes uma das garrafas que já tinham esvaziado. Depois disso oferecem um pouco a todos os passageiros do vagão.

Faço de conta que não as ouço. Tenho o bilhete na mão e parece não haver maneira de fazer chegar o fiscal. Dizem pelo rádio que a maluca morreu sozinha esta manhã, num apartamento em Londres. Antes de darem meia hora de música porque já passa da meia-noite e depois da meia-noite não há notícias no mundo. Espera-se apenas que a viagem termine. Olho os pés à procura de areia que possa varrer, ou de vidro que me tenha cortado sem eu sentir. Apetece-me dizer-te que hoje pisei areia e pisei vidro, pisei sangue e por pouco não fui atravessada por um desastre no cruzamento da Rua do Século. Por um ou dois minutos. Que aqui só os fiscais são lentos à chegada, todo o resto se precipita à mesma velocidade com que todos os dias morrem outros.

Tenho vontade de to dizer porque tu saberias o quanto me incomoda a morte dos outros. Mesmo quando não lhes conheço o nome e são apenas um desastre em que o único nome com que fico é o da rua em que quase se mataram, ou talvez, tenham começado a morrer. Tu perceberias isto. Ouvirias a imagem que te daria: a miúda a cair ao chão e eu procurando-lhe a perna que, pelas calças que levava, era tão escura como o alcatrão; o rapaz que tinha batido contra o muro, rastejando pelo vidro, enchendo o passeio de vermelho, para se pôr ao lado da miúda dando-lhe a mão. Tu, se não estivesses morto, saberias e dir-me-ias que caso fossemos nós a chocar de frente contra uma velha num cruzamento da Rua do Século, também rastejarias para me dar a mão, embora soubéssemos que provavelmente seria eu quem o faria.

Rir-nos-íamos, e eu ouvir-te-ia a dizer mais uma vez: Beatriz: é toda a diferença que faz um ou dois minutos entre estar-se vivo ou morto. Em vez disso, olho pela janela contando o tempo que falta até ao fim da viagem enquanto ouço, dentro da minha cabeça, outra frase mais velha e que me diz, como diria a minha bisavó se fosse viva: a vida só nos dá o sofrimento que sabe que nós podemos aguentar. Ao que eu lhe responderia, sem que ela entendesse, o mesmo que te diria a ti: O problema dos outros é morrerem-nos todos os dias.

É meia-noite e quarenta e nove. Nenhum fiscal chegou e a minha viagem continua à espera de ser revalidada.


Suspensões

Suspendes os medos em cada canto do teu espelho. Se te olham e te perguntam o que são, dirás que suspensos se deixam embalar pela porta, que se abre e que fecha, vezes sem conta, mesmo antes de acabares (alguém atrás de ti, pede rapidez, pede espaço: o teu espaço deixado vazio para alguém se pintar de novo dia).

Dirás que é preciso adormecê-los, antes que a manhã mais alta apareça com a chave certa a trancar o dia que ontem acabou, mas não te deixou, e por isso embalas medos entre os dedos ao lavares a cara apenas com água (alguém atrás de ti, abre a torneira de água quente abrindo a escala aos segundos de atraso). Recusarás a ideia de que há medos suspensos que te fazem pesar o olhar sobre o espelho, demorando-te ainda mais. Enquanto encontras encanto nos ângulos da moldura do espelho: que se fazem de ombros tão largados que nunca acabarão, que nunca te pedirão, tirarão espaço aos sonhos que lhes suspendes.

Entendes por segundos o porquê daquela imagem de mulher, de cestas apoiadas em cada ombro, te ter sido tão querida, quando ainda não tinhas medos nem sonhos que precisassem de ser adormecidos. Naquele tempo em que não havia sucessão e as semanas e os meses se prolongavam num imensíssimo dia em que fazia sempre sol entre as tuas mãos. Percebes agora o porquê da ternura por uma imagem que ainda não entendias, mas que agora é tão tua como esta forma de seres canto de espelho.

O verniz da madeira esbatendo-se até ganhar aquele ar mais ou menos sanguíneo da sépia por encerar. Imaginas que te faça sentido porque ganhaste o hábito de retirar à superfície qualquer forma de protecção que te fizesse sentir confortável ao sol. Como ao vapor de água quente: que te torna um pouco mais de fantasma e um pouco menos de gente, ao demorares-te ao espelho pela manhã: quando ainda se hão-de abrir os portões ao dia por crescer.

Ouves o que te dizem. Não sais, há essa sensação que, se saíres agora, não serão só os medos e os sonhos por adormecer, serás também tu de rosto esquecido no espelho. Começando o dia, andando na rua, bebendo em cafés sem a memória que tens de como é o teu olhar a cada hora do dia. Que nunca ninguém te verá tanto como tu. Enquanto suspendes os medos, a roupa por secar de outros dias mais longínquos a que o sol não chega, por ser da roupa esse espectro de choro que deixaste lá ficar, tão longe como o lugar onde os navios param em alto mar. Tão alto o mar, como os teus dias, quando te pedem para saíres e tu sabes que serás sempre a única que não sairá.

Talvez nem precises de espelhos ou de manhãs, só de corpo, que se soubesses o farias crescer, os ombros rivalizando a distância entre os cantos da moldura, as mãos aumentando levando mais água fria ao rosto por lavar e o rosto crescendo por dentro, guardando todos os medos, todos os sonhos, embalando-os nas pestanas que os acalmam sem nunca os deixarem cair.

Ver-te-ás sempre mais do que – o que não te verá. Ficarás sempre mais do que – o que não te ficará.

A incompreensível força que te faz dar a volta à chave ao saíres de casa.


Acidez

Aqui no chão, sentada. Pernas cruzadas: a bata quase lhe cresce até ao início dos joelhos: agarra-a com os dedos, forçando a bainha, tentando cobrir o frio das pernas e dos pés. Zanga-se e puxa a parte de trás da bata que se abre e lhe deixa cair a linha mais fria das costas: puxa e puxa: encolhe-se. Nunca o vai conseguir. Aquele pedaço de tecido sem cor, sem padrão, moldando-lhe a forma ao corpo. A pele transbordando e já não há pele, antes gaze que lhe torneia os músculos, os ossos, tingindo-se com este branco de corpo novo, de bata nova, de quarto novo.

Ao vê-la pensei que era da nudez mais ácida que alguma vez veria. De uma acidez perto do último gomo de limão que usávamos na limonada dos nossos doze, quinze anos, e que obrigávamos os outros a beberem só para lhes vermos a expressão. A gargalhada com um doce travo de maldade – queres açúcar? dissessem que sim, dissessem que não. Outro riso, que naquela banca improvisada nunca haveria o mais pálido vestígio de branco.

Agarra a bata com mais força, as unhas mais compridas vão rompendo o tecido que ainda assim não treme. Abre-lhe entradas onde atravessa os dedos mas não as mãos, entala-os no tecido, prende-se. Tenta soltar-se mas só os cabelos lhe respondem e, não duvido, se tivesse as mãos livres agora, arrancava-os à mão cheia até se livrar do calor que lhe provocam e que lhe ferve nos lábios. Esses sim, suficientemente rasgados sangram e há gotas pequenas, quase nadas, que lhe mancham a gola demasiado justa ao pescoço. Morde-a. Como nós fazíamos quando brincávamos aos animais e nos portávamos como animais, mordendo por diversão quem para nós olhasse.

Mostra-me os dentes enquanto se tenta levantar. De joelhos no chão que tem cor de metal e é tão liso como o melhor olhar que dávamos a quem gostávamos, a pele imitando a superfície das lâmpadas, tão frágil, ferindo-se nas arestas dos ossos, ruborescendo como as maçãs que roubávamos nos pomares de desconhecidos que, caso nos seguissem de caçadeira nos ouviriam rindo, enquanto as roíamos atrás daquele arbusto que não era grande, mas que se alargava ao encolhermos os corpos, uma contra a outra, naquela proximidade em que só nós existíamos.

Não sei quando me paraste de existir. Ou quando parei de existir para ti. Mas ao fim destes anos todos posso dizer-te: nunca fomos doces.

Tão naturalmente violentas que não há aqui história ou tragédia familiar que nos impeça de o ser. Não se sabe da origem das macieiras nem da ideia proibida da acidez numa mulher, quanto mais em duas, que talvez nos multipliquemos no vento através da boca dos homens que beijámos. E não é deles esta forma de malvadez que nos traz onde estamos agora: à distância conveniente em que te mordes e em que eu te posso morder. E não sei se haverá nisto loucura como na bata e no quarto que agora usas, mas tenho-te como a nudez mais ácida que algum dia verei.

E, meu amor, nada temas: mesmo que saia hoje levo comigo toda a nossa acidez. Para que não fique sempre presa em batas e quartos tão brancos.


Pontos

Não sei quando reparei neles. As paredes eram brancas como tudo o resto, mas nunca totalmente brancas, salpicadas de pontos negros que me pareciam como uma sujidade nos olhos. O médico que os examinou disse-me que eram meus, pontos escuros de coisas que tinham morrido, uma espécie de poeira que com os anos aumentaria e potenciaria o derrame das cataratas. Não sabia que se começava assim: por pontos escuros onde a luz não chega, partes de noite que se viram para dentro e te consomem a visão do que está tão branco que só em ti há essa ideia de negridão.

E não são bem como uma ideia: mais uma fé inabalável nas coisas que estão por vir; que talvez a cegueira seja uma forma de oração a um deus mais negro que toda este deserto de onde vejo as manhãs que agarram aos carris os vagões, de onde começo os dias. Os horários das manhãs são tão rígidos que me parece que os calendários se sucedem por ordem directa de um funcionário público. E é certo que deus, a existir, é o funcionário público mais bem pago deste país. Por manter os dias na ordem da voz que dita o destino de entrega e recolha aos vagões mais ou menos vazios dos meses mais tristes deste inverno.

Não é certo que pense muito em deus, como não penso neste país ou nos horários dos comboios; mas penso o negro que me pontua os olhos com a mesma certeza com que imagino as costas dos carris vincadas pela passagem das rodas. Há algo nisto que me comove, por ver as coisas tão vivas como o metal que avisa o cuidado com a vida, a linha amarela que se encrespa na sola dos sapatos caso a atravessemos desatentos ou à pressa de chegar ao outro lado. Da margem esquerda olho a direita onde mulheres e homens de visão inócua me devolvem o olhar com a desconfiança com que os desconhecidos se reconhecem entre si. Nunca seremos mais do que dois pontos cruzando a linha do comboio em direcções opostas.

Que há manhãs que nunca se tocam e, não é certo que pense muito no tempo mas, à falta de horas, espreito-lhes as manhãs com a mesma curiosidade com que penso na possibilidade de ter uma noite só para mim dentro dos olhos. À noite, os que se vêem transmutam-se em algo mais perto das costas maceradas dos carris, e são vagões cheios de gente que se acotovela como nos meses mais quentes do ano. Trazem areia nas sapatilhas e toalhas coloridas em ombros despidos: a luz que resta ao mundo. Enquanto deus, funcionário público, deita a sesta sobre a mesa de reuniões quando, uma vez por ano, abre ao juízo dos anjos a votação pela defesa da mortalidade dos homens. Todos votam a possibilidade de nunca se vir a ser eterno, que os anjos, temerosos por vocação, não querem ver questionadas as suas capacidades na hora de levantar a alma da sepultura.

E não é que pense muito em anjos, mas nos pontos que tingem de negro a parede mais branca, confundindo a escuridão com a escuridão das noites em que flores de inverno me nascem no tecto, por haver telhas partidas e caldeiras entupidas, qualquer coisa parecida com os obstáculos que param as linhas, nas manhãs em que os velhos escolhem a hora com que vão dar alento às estatísticas de deus.


Os velhos mais velhos do mundo

A prata já não me incomoda. É o corpo mais leve da praça. Tão leve que quando abrimos as portas gradeadas nos vem parar aos pés. Não te preocupes: aqui, aprendemos rapidamente a não esperar o melhor da prata: que raras vezes serve de consolo ao chocolate. Como aqueles que me compravas na avenida, por serem da forma do guarda-chuva de quando me chovia, só a mim, a rua inteira. Não sei se é possível mas lembro-me de o pensar – que aquela rua só a mim me chorava quando anoitecia. E não sei se te lembras mas era inverno e eu vinha dos comboios, subindo a rua até a avenida que, ao longe, se parecia fechar sobre si mesma lamentando a viuvez das tílias, quando soube que haveria noite em que não mais te levaria aos comboios. Que é de mim esta materialização de fim.

Por me parecer que só sabendo do fim se pode desejar a história das coisas. E sim, é coisa estranha mas, é isto: sou das tílias dos plátanos e dos castanheiros. Das raízes como do mármore cortado ao meio-dia, dos gradeamentos verdes e dos muros de pedra rala, que são fáceis de escalar, dos gelados de baunilha e dos velhos que nos olham com aquele ar de há ali mil anos.

Os velhos mais velhos do mundo: sei-o, perfeitamente: não esperam em bancos de jardim caiados a vermelho, nem olham as raparigas que saem de minissaia do colégio, nem jogam à sorte ou à falta dela, nas cartas de mesas de papelão improvisadas, roubadas à casa de mendigos com menos tecto do que estrelas, não: os velhos mais velhos do mundo, bebem vinho tinto ao almoço, usam canas da índia para te baterem nos dedos à distância, nunca pedem desculpa, ou, pelo contrário, bebem chá de tília, consolam-te a infância de mão dada e falam a voz mais baixa da terra. Mas, todos eles, e isto é o mais certo que tenho: todos eles, tocam piano e sabem de memória todas as formas com que se contorna o tempo no tempo de um compasso.

Têm piano branco ou negro, põem-te a mão sobre o ombro ou sobre as costas: ajeitam-te o corpo; cortam-te o movimento se desprendes demasiado as asas, que só se toca de asas fechadas; e nada de trejeitos que nunca se sabe do que a música é capaz, e se abres demasiado os braços no intervalo em que uma mão plana sobre as teclas, perdes o tempo certo daquela nota certa e sabe-se: uma nota perdida é uma nota morta e nenhum pianista gosta de cemitérios.

Vivem mais de cem anos. Tenho isso por certo. Conservando os ossos dos dedos nas teclas brancas e os medos nas teclas negras, batendo uma e depois a outra ou ambas no ritmo que se some no mesmo tempo. Fazem coisas extraordinárias: lembro-me perfeitamente: ela, quase imóvel, as costas mais direitas que uma faca e, era como uma faca: uma navalha de fazer a barba ao homem de quem foi viúva, e pode parecer disparate mas ela dizia-o, que tocar lhe lembrava o tempo em que lhe cortava as mágoas do rosto. Ele doido, porque não era pianista e a morte veio-lhe com a loucura, tomando-a por irmã e ela, que enterrou pai mãe irmã, enterrando homem e pensando no medo que era morrer e ter de ver todos aqueles mortos que demorou séculos a enterrar. Que há valas, dizia-me, impossíveis de escavar mas que uma vez abertas são tão grandes que servem de colo à vida inteira.

Foi quando a rua me começou a chorar que te antevi o fim. Que até os velhos mais velhos do mundo morrem. E, não sei se aprendi bem, mas acho que virá o tempo em que até as pratas me pesarão mais do que a praça inteira. Um pouco como cada um dos comboios em que te deixei.


Persianas

Nunca soubera dizer se era noite ou dia. A precisão do tempo diluindo-se na luminosidade mais intensa, mais fraca. E não importava que nunca soubesse dizer se era noite ou dia. Porque o dia e a noite: nunca verdades completas. Coisas que iam caindo por detrás das persianas. Agora, deitado na cama, de rosto parado na caixilharia de dentro, olhava a janela a partir do interior do seu quarto, a luz abrindo o corpo às partículas de pó que flutuavam, sem peso, no ar que lhe enchia todo o espaço. Imaginava que fora assim desde o início, história contada como só a própria história se pensa. E contava a sua história à vida que levava, por não saber, como da noite e do dia, o tempo certo em que a história se findaria. Pouco lhe dizia, que não era dado à memória pensada do que há-de vir. Ir, ir como qualquer coisa que se vai fazendo de verbos, a transição do tempo, do corpo tão leve como o pó. Que mesmo no tempo em que não houvera persianas corridas, pensara-as como se as houvesse logo aí, o futuro que se projecta para trás, no momento em que se fixa os pés no que, – já foi, dizia a si.

Convertendo todas as orações, as frases, – a primeira oração, a segunda oração, lembrando-se de quando o ensinaram a subtrair as partes do todo, a mulher que o fizera, a mesma de mão, braço, pulso movendo-se lentamente no ar, que na música: o compasso que quebra as notas é igual ao compasso em que se esperam os dias, que um dia não serão mais esperados. Via, e via mal, que o defeito: as pálpebras descendo o olhar sem nunca se fecharem, por ser delas a falta de espaço que nos outros admirava. O pestanejar que protege das impurezas do ar, aqueles milésimos de segundo em que se fecham, fazendo do mundo escuridão. Uma escuridão que nas gentes normais era tão profunda que não a viam. O homem que nunca deixara de ver e que aprendera a converter frases em orações como compassos em pausas, não percebia as partes que faziam o todo: a ele só a soma de tudo o que era sem intervalo.

Se olhasse um rosto, o rosto de alguém, de ninguém que por ele passasse, parecia-lhe ver no pestanejar do outro coisas que ao outro estavam vedadas. E, contudo, nunca se vira de olho fechado, como fazem as crianças diante do espelho: fecham um olho e o outro aberto, vigiando a forma que se tem com o outro fechado; imaginando o que a nenhum homem é possível; a imagem que se deve ter deitado. Parecia-lhe haver partes indivisíveis do mundo. Porque exactamente por se ver, por se ter de ver, não se pode ver o próprio rosto sem visão. O que lhe parecia outra forma de cegueira. A ele que estava no meio das coisas que não eram correntes, achava-se defeito: nunca fechando completamente, mas vendo os outros que o fazem. Via os compassos e pouco percebia de música. Mas via-os e via-os tão totalmente como ninguém que fizesse música poderia ver.

Rapidamente se interessou por aqueles milésimos de segundo em que os outros pestanejam e ele não. O que via parecia-lhe em pouco diferenciar o dia da noite. Gostava por isso da electricidade, como uma lâmpada que nunca se apaga a menos que os fios se partam: olhara-as em criança durante muito tempo. O coração da lâmpada, como o estendal de roupa de sua avó: dois arames que sustentam o fio que quando se descose deixa cair a roupa, as nódoas. Tudo o que não se cura pela centrifugagem que era para ele idêntica ao redemoinho em mar alto: dissolvendo o corpo ao náufrago, matando-o se for preciso, mas sem o fazer desaparecer. Que se pode empalidecer até a ausência de sentido, mas a presença mantendo-se, como a luz que – onde colocaste a venda?, a mãe perguntando-lhe desde pequeno. Habituado que estava ao tecido sobre os olhos, um pouco de escuridão para que adormecesse. Ele olhando sem parar o tecido pelo interior, como os olhos que vêem o corpo ao corpo, vermelha ainda por cima, a venda, parecia-lhe miragem de veia. Sonhara muitas vezes com isso: que via e vivia dentro das veias de alguém que não ele. Queixara-se disso, e a mãe, – deixa-te disso, que não és médico para ver o peito as pessoas. Mas via. E via tanto, que a única mulher a quem conhecera cama era cega de nascença. E havia nisso compasso certo: ela sem nunca ter visto, sem nunca o ver, e ele sem cessar de ver a não visão da mulher.

Achava que era o equivalente a andar-se na rua de corpo vestido mas sem pele, uma forma de descarnação que não era sangrenta, antes fria como uma imagem de livro de anatomia. Deles lera alguns e as imagens pareciam-se com as imagens com que sonhara através da venda vermelha. Fez-se médico. Daqueles que só servem para abrir os corpos. Especializara-se na soma de escuridão que cada órgão recria perto de morrer. Os tumores, que todos detestavam, eram-lhe tão interessantes como os milésimos de segundo em que alguém fecha os olhos. Privado do movimento mais instintivo, via-se obrigado a humedecer os olhos para que não quebrassem como contas de vidro. Nunca lhe dissera que a vira sempre. À cega, a quem mentira, ele parecia-lhe tão cego como qualquer outro cego. Deixava que ela assim o pensasse. E era correcto, porque de tanto ver, parecia-se com qualquer outro cego que tacteia a realidade para a saber parada, chegando-lhe o apoio dos objectos. Porque às vezes de tanto ver, cansava-se de ver, e o pensamento parava como um intervalo brusco numa partitura que faz saltar de linha as teclas de um piano. Ela, que nunca sequer soubera o que ele fazia para ganhar a vida, depressa se fartou, por precisar de quem lhe encaminhasse o passo.

Foi numa tarde de outono. Ela acabou e ele deixou-a acabar, como deixava todas as coisas por não lhes perceber fim próprio. A mãe, que morrera quando é próprio às mães, deixara-lhe, antes, as vendas guardadas na primeira gaveta da cómoda. Usava-as à noite, muito embora lhe fossem persianas mal corridas, a história que tivera contara-a muitas vezes a si próprio – nasceste numa noite de primavera, depois da sobremesa, e o teu pai, a quem não conheceste o nome, não te viu nem te tentou despregar os olhos; a parteira que disse à tua mãe: – menina, o menino tem olhos fechados, mal sabia que ao abrir-te as pálpebras com a faca mais fina da casa te daria não só mínima cicatriz como daria peso à poeira que nunca te largaria os olhos.

Via-a. Pontos de sujidade que lhe pareciam crescer sobre a retina. Talvez fosse catarata, queda de água por ser dos olhos a multiplicação de sal, de quando se é triste e se chora contra a almofada. E esperava que o fosse: o mundo enegrecendo e ele livrando-se dos sonhos de quando sonhava que via e vivia no interior das veias ou cismava em ver o mundo em sépia como Clarisse, a cega. Que ironicamente nunca mais veria. Nem na rua quando a procurara junto aos cantos de queda por ser deles a medida certa da rua para um cego.

Servia-lhe de consolo a história que contava a si mesmo, a evidência de que no futuro nada mais seria do que estendal a quem os anos corrói as cordas e deixa cair as nódoas. 

 


Dê cá mãe, que eu arranjo

— Dê cá mãe, que eu arranjo, a sala de mobiliário pesado respirava com dificuldade. As cortinas, que se fizeram amarelecidas com o tempo, turvavam a luz que caía sobre a mesa de jantar. Redonda e em pau-preto, levava no centro uma jarra de flores secas misturadas com centeio ressequido. O homem, sentado à mesa numa das cadeiras de palhinha, aprendera desde cedo a equilibrar o peso do seu corpo; as pernas entreabertas procuravam a solidez da madeira, tentando aliviar o esforço da palhinha. Ocupava pouco espaço, o homem, que mesmo ao tornar-se no único morador daquela casa, evitava a cabeceira da mesa, onde pai e mãe se sentaram há mais de vinte anos atrás. Nunca conhecera mulher.

Das crianças, do irmão que as tivera, guardava a ideia de demorarem demasiado tempo a crescer. O que o aborrecia fatalmente e, embora nunca se tivesse esquecido do seu lugar à mesa, a infância era-lhe coisa longínqua. Como um espaço inabitado de memórias a quem só as marcas na cadeira lembravam que também ele havia crescido e pesado sobre ali. O peso era coisa que o atemorizava. Na rua, quando saía, caminhava sempre junto aos canos de queda de água, fazendo-se tão próximo que, não raras vezes lhe chovera no ombro, mesmo quando em toda a rua fazia sol. Uma nuvem privada que só a ele seguia, a quota parte de mundo a que encontrava destinado. O que não lhe desagradava, por saber que é nos cantos das ruas, junto às dobras das fachadas, que se encontravam os restos da passagem dos transeuntes.

Achava graça: moedas pequenas, botões, páginas de agenda, talões. Tudo o que de diário ali passava e que a rua guardava para si como memória de que também ela respirara. Sim, respirara, porque à noite, parecia ao homem, a rua escurecida e esquecida dos passos que a encontravam e deixavam, era sufocada por sonhos malévolos de quem dela fazia alcova, pedintes e prostitutas; deles fugiria caso os encontrasse, por serem conhecidos pelo saque das pequenas coisas da rua. Por isso, e temendo que a rua perdesse a sua idade, guardava-lhe as coisas que lhe encontrava junto aos canos para, dia após dia, as devolver.

Aprendera-o com sua mãe que, com a velhice, se esquecera de muitos nomes. Ouvindo-a com atenção, guardava-lhos na sobra de papel do guardanapo para, na tarde seguinte, à hora do chá, que era a hora da mãe, quando era hábito milenar ouvir-se o que a mãe dizia, lhos recitar, um por um, devolvendo-lhos e levando-os de novo no bolso do casaco mal ela os perdesse. Era um coleccionador. Das coisas que trazia da rua, nunca se esquecia. Quem o via tomava-o por louco, que o era de facto, os hábitos a que se prestara durante todas as décadas que observara da janela do seu quarto mantinham-se vivos, mesmo quando os sabia em desuso. Por exemplo, quando o dente da frente da dentadura de sua mãe se tomava de humores vespertinos, deambulando sozinho entre a falsa gengiva e o lábio inferior, sem contudo se despegar totalmente, — Dê cá mãe, que eu arranjo, dizia, pegando na pinça com que o domesticava, restituindo, à boca materna, o equilíbrio sóbrio com que sempre o habituara. Mesmo depois de morta, a dentadura, que não fora com ela na urna por não ser dos mortos sorrir com os dentes todos, todas as tardes, às seis horas o homem de lugar fixo à mesa devolvia ao equilíbrio o dente que sem uso já não dançava.

A mãe dissera-lhe certa vez que talvez fosse do chá. À hora do chá, o dente falso inflamando-se de dor como que se queimando na água que tinha a mesma cor das cortinas da sala. Falava sozinho, embora não o fizesse sozinho; o dente, que o ouvia, revelara-se segura companhia, seguindo-o por todas as divisões, guardando-se do frio no forro do bolso do casaco de benzina. Levava-o a passear todos os dias, mostrando-lhe as ruas e as outras coisas que, como ele, deixavam de ter utilidade para as gentes que por ali passavam. O abandono do que é pequeno parecia-lhe criminoso, sentia-o como uma falta de domínio público, um delito apenas punível se fosse possível fazer de objectos as pessoas — pensamento este que tinha no dente devoto apoiante. A mulher que atira o talão das compras antes de entrar na porta do prédio deveria ser transformada em papel: os lábios, os olhos, o nariz e a boca apagados, esfumando-se na densidade frágil de uma folha tão doce que apenas as letras palidamente tingidas lhe poderiam fazer a vez das feições. O rapaz que deixava a beata de cigarro junto à boca do cano de queda, estreitando-se, o corpo encurvando-se num cilindro queimado pela chama, como o coto de uma perna gigante, mas sem guerra, pior do que sem guerra, sem razão: uma simples casualidade da vida, que o faria tão sem sentido como aquilo que abandonava. As velhas a quem os botões dos casacos caíam, desfalecendo à luz do sol, tornando-se cheias e vermelhas, no lugar dos dois olhos duas cavidades atravessadas por uma réstia de fio, para sempre desterradas de suas casas. Sim, parecia-lhe justo: que cada um se tornasse naquilo que abandonasse. E embora fossem da rua estas memórias que deviam ser conservadas, as gentes deviam às ruas, às pedras, mais do que o gesto de quem deixa tombar: dessem-lhes flores ou coisas preciosas, como dentes postiços que lavraram em anos idos palavras como as de sua mãe.

- Nunca se esqueça do seu lugar à mesa, e o valor das letras que se faziam tombar como a cera das velas que lhes alumiaram tantos jantares. A felicidade que nisto tinha era paralela ao desdém de seu irmão, que achara a mãe fria como chá que, ao ser esquecido, se torna amargo no fim da boca. Nunca entendera porque o dizia. A mãe quente de dente trémulo, chorando de mãos cruzadas sobre o colo (como uma senhora, só os tornozelos cruzando-se, para não enrugar a saia da mesma cor que o chá) — o meu irmão nunca me vem ver. Esquecendo o nome do filho, tomando-o por seu irmão, o homem anotando no papel o nome do seu irmão e o nome do irmão da mãe para lho dar no dia seguinte, fazendo de seu irmão também, e ele juntando nos braços a mãe e a irmã, que nunca teve. O dente que, do forro do casaco, lhe lembrava — Nunca se esqueça do seu lugar à mesa, dava-lhe conforto pela forma como se moldara em boca materna, como se levasse ali parte da língua com que sua mãe lhe falava. Só isso lhe restara: passear a única boca que gostara de ouvir. Para que ela não se esquecesse das palavras que lhe deixara.

Até ao dia em que, ao passeá-lo na palma da mão, o deixara tombar junto à boca de um cano. Deitara-se no chão, com a cabeça entre o espaço que ia do fim do cano ao buraco na via, a queda de água cedendo; e não se sabe como aconteceu, uma parte desligando-se do resto, que os canos por serem altos se fazem de muitos canos enroscados, batendo-lhe um pouco acima da nuca, o rosto chegando-se ao cimento, a cana do nariz rasgando-se e os dentes quebrando-se como se, por instantes, engolisse parte da rua. Não morreu. Nem morreria de tão estranho acidente, sem os dois dentes da frente ou o de sua mãe, Albino Bemjesu. Dedicaria o resto da sua vida a tapar os buracos da via pública. Fazendo com que o choro dos canos, ao ser largado, lavasse a sujidade das estradas que, com o tempo, parecia desfazerem-se num rio de chá frio.


Caixa de música

Às vezes, antes de adormecer, abria a caixa de música sem bailarina que girasse. Deitado com o corpo virado para o lado esquerdo, a luz mais baixa do candeeiro de outono aquecia-lhe o rosto, enquanto olhava a música que crescia do forro da caixa vazia. Que houvesse ali imagem, bailarina, rapariga de corpo rodado, rodando a música para que nunca saísse do tom, do compasso certo, mas: Não. O espelho gasto devolvia-lhe a imagem do seu rosto em recortes que eram da velhice do vidro. Uma cara que sem lhe pertencer – e talvez lhe pertencesse – vinha de si, uma forma de ver o futuro no passado de uma caixa. Que não fora sua, e mesmo ali ao seu lado, nunca o seria, uma espécie de empréstimo que lhe adoçava as noites. Via a música, e não importava que a música não fosse coisa para ser vista, via-a, e no que via juntava o paladar amargo das folhas de quando caem nos meses mais violentos do ano. Uma violência compassiva que lhe enchera as ruas de quando as fizera em pequeno, os passos que tivera junto à mão de sua mãe, para quem a caixa de música sorria ao entardecer.

A avenida rodando junto ao momento, – antes de entardecer e de se ser casa, lareira acesa e mãe de cabelo solto – em que vento endoidecendo se aninhava ao chão, perto das raízes onde as folhas se encolhiam, camas e camas de folhas avermelhadas, amarelecidas, que naquele instante despertavam, levadas pelo sopro mais forte do tempo, que lhes dizia que era tempo de abrirem o corpo às ruas. Tingindo-as com o que lhes durara a primavera. De quando eram ainda filhas de pés curtos alimentando-se dos braços de pai, braços de mãe, – e o homem, que ao adormecer ouvia a caixa de música, pensava, que talvez fosse com as árvores como é com os homens de pai de mãe – na infância. Que havia na beleza das estradas de inverno a cor da infância que se extinguia nas folhas. Caminhara sobre elas. Como todas as crianças de mão com mão de mãe, e talvez fosse isso a que lhe soava a música que não ouvia, via, como memória de mão.

Perdera-a há muitos anos. Como todos perdem a infância nas ruas, – que há momento em que nos tornamos como as folhas: infância que tinge de cor o inverno - não que tivesse tingido alguém para além de si. A memória era coisa que o alimentava apenas a si. Tivera filhos e mulher. Embora o espaço de cama fosse só seu: nenhuma outra folha caída por ali ficara. Os filhos, mais homens que crianças, tingiam outras ruas com cores que só a eles pertenciam. Que mão de pai ali não houvera. E como a haveria se, a mão daquele pai, tão cheia de mão de sua mãe? Na casa que mandara pintar com todas as cores de que se recordara, apenas o som das folhas caindo a enchia. Àquela hora, antes de adormecer, quando as primaveras se voltavam de novo para ele, contando-lhe histórias que há muito soubera, recordando-lhe nomes e lugares de gente que cumprimentara e lhe dera bons dias e um doce no inverno.

A mãe, quando a pensava, agora só mãe de mãos brancas, ossos enterrados no canto mais longínquo da terra. E não sabia de onde lhe vinha aquela música que lhe enchera toda a vida, mas, diziam-lhe as primaveras de há muitas décadas atrás ao devolverem-lhe a voz no reflexo do espelho: talvez dela. De olhar vazio olhando o mesmo espelho. Fora num fim-de-tarde de outono, as folhas ainda sem acordarem do sono de estarem vivas, e a mãe tomando mais dores de cabeça do que em qualquer outro dia. Tantas como os rebuçados, que não eram rebuçados mas que ela dizia que o eram, fechados à luz numa caixa de metal pintada a verde-escuro.

E Ele, vendo na música que tocava desde então, a mãe de olhos vazios, a mão mais fria que houvera, para sempre longe das primaveras que só a ele agora vinham. Por não ser dos que se matam a memória das folhas.

Ouvia-a todas as noites antes de adormecer. Pensando que talvez fosse a música dor de cabeça, dor que matasse quando tomada em doses comprimidas num veneno de há anos, que de tanto as ver, um dia, o corpo acordando como folhas acordando ao vento, tingindo de branco toda a vida vivida, dando vazio a música que, um dia quando parasse, só escuridão sem mãos que o agarrassem. Que de tanto a agarrar sentia nos nós dos dedos a asfixia de toda a rua que se abria no seu peito.


O homem que não dobrava

Nunca apertara os sapatos. Sentado na borda da cama, com as plantas dos pés bem firmes no chão, olhava o rodapé da parede em frente, e pouco importava que a parede se abrisse em janela de namoradeiras, como aquelas que eram feitas em granito nas casas de nossos avós. De olhar pregado à fina mas longa linha, Tomásio João passava assim os primeiros minutos das suas manhãs. À noite, quando se preparava para dormir, pouco lhe interessava o rodapé pintado de vermelho escuro só de manhã, naquele intervalo de cama em que já não se está deitado e ainda de pé se não está, o admirava. E não é que houvesse algo no rodapé do quarto de Tomásio João que o distinguisse de tantos outros rodapés que, semelhantes àquele, uniam todas as divisões das casas.

Muito embora lhe fosse estranho que eles existissem, os rodapés, uma espécie de língua de madeira que parecia guardar os segredos de tudo o que pudesse ser ouvido em qualquer divisão. Essa estranheza, que lhe parecia tornear a voz, dobrando-a e fazendo-a ciciar, rapidamente deixara de ser notada pela mulher com que casara. Era só isso: a mulher com quem casara. Algo de indispensável, uma vez que lhe permitira manter o seu voto de nunca apertar os sapatos. É claro que, por vezes, lhe era incómodo, sentado na borda da cama, esperando que a mulher acordasse do seu sono; pouco lhe restava fazer senão observar as irregularidades do rodapé. Mas fora assim que seu pai lhe ensinara. Raul Ordenha, homem simples que toda a vida apertara os seus próprios sapatos e cuja maior vitória fora, exactamente, possuir uns. 

Pastor, filho e neto de pastores, Raul tivera azar com a mulher que escolhera. Frágil, a sua pele parecia-se com a de uma asa de rola depenada, aos olhos sabão azul e branco seguia-se a rectidão das linhas que, pela sua evidente fragilidade, se pareciam amontoar sobre um queixo pequeno e franzido pelo peso, aparentemente insuportável, de uns lábios finos e gretados, sobre os quais o nariz curvilíneo baixava sombra. O cabelo raso em completo desalinho tentava equilibrar-se numa traça que lhe irritava a pele da nuca; as orelhas, que Tomásio herdaria, eram como todo o resto: finas e curtas como as de uma ovelha tosquiada. E não se sabe se fora isso, ou aquela composição estranha de fragilidade pesarosa, que deslumbrara Raul que, ao vê-la no caminho que fazia de volta a casa paterna, se apaixonara pela rapariga que, ele dizia – uma gotinha de céu. A verdade é que Dácia não chegaria a completar vinte e cinco anos, tendo acidentalmente morrido enquanto preparava uma canja de galinha.

O peso da panela com água fervida revelara-se demasiado para ela que, de natureza quebrante, a entornara sobre si. Não se sabendo se Tomásio, que era pequeno, terá assistido ou não ao trágico fim de sua mãezinha. É certo que gostava de grilos. E tinha ido apanhá-los, munido de pauzinhos previamente preparados com a sua faquinha corta-mato. Narra a história que só ao fim do dia, ao entrar pela cozinha, dera com sua mãe inanimada, os olhos esbranquiçados, o rosto vermelho vivo apenas encobertos pelas linhas de massa fina que tinha juntado à água. O médico que a vira, embora indeciso entre a queimadura ou um provável enfartamento cardíaco, julgara por bem perpetuar a memória de Dacinhinha como mártir de cozinha. Para que servisse de santa e exemplo às vizinhas pouco dadas às lides de casa.

Desde então, Raul, vendo-se pai e mãe, cuidara de educar Tomásio a seu gosto. Com pouca formação, depressa se tornara evidente o bom jeito que o rapaz tinha para a cozinha. Inventado pratos frente a sua mãe, com retrato guardado numa prateleira por cima do fogão; pratos exóticos, aos quais juntava peles de galinha e folhas de cipreste, entre outros ingredientes de fundo fúnebre. E, contudo, era conhecido nas redondezas pelas suas habilidades culinárias, que na cidade lhe valeram um bom emprego e a vida que seu pai sempre lhe desejara, - Que nunca tenhas de atar os teus próprios sapatos, dizia-lhe todas as manhãs ao calçá-lo. Esperançoso que a vida fosse leve a seu filho, - nunca cases com mulher pequena, o que de facto não fizera. Cristina de Jesus, com quem desposara, era mulher de rija tempera, encorpada e engrossada pelos anos que levara como sopeira em casas de bom nome. Unos no gosto, eram contudo diferentes: Cristina mais miudezas de carne, enquanto que Tomásio mais brancura. Viviam um casamento sereno, cimentado no princípio basilar do movimento: Tomásio nunca se baixava. O chão deveria estar-lhe tão distante quanto a sua altura o permitisse, coisa que para Cristina, era terna, - é tão sensível, encontrou a mãe morta no chão e foi aí a única vez que se abaixou. Encontrava-lhe sensibilidade onde a não havia, desconhecedora que era do passado de seu marido enquanto caçador furtivo de grilos, assim como dos ensinamentos que Raul Ordenha transmitira ao seu filho.

Ao vê-la, Raul, que estava já perto do fim, dissera: - Que é boa como mula!, tal frase, ouvida entre lágrimas por seu filho, constituiria o maior elogio que algum dia receberia por ter desposado Cristina. Não era homem de se queixar e, nas horas que passava a olhar o rodapé, recordando as palavras de seu pai, apenas se entristecia pela má vontade que Cristina demonstrara quando lhe pedira que limasse as irregularidades do rodapé. – Mas quais farpas se só tu as vês?, respondera-lhe certa vez, quando ele, de pés bem calçados, lhe apontara a falha na madeira.

Alguns anos volvidos e sem filhos a quem pudesse recorrer, Tomásio resolveu-se a arranjar o rodapé. Munindo-se, como era tão seu, de todos os instrumentos afiados que lhe pudessem valer, esquecendo-se apenas da lixa. Foi ao levantar-se do chão, onde finalmente se tinha abaixado, — o que lhe dera ampla visão sobre o chão empoeirado do seu quarto, coisa que o desgostara profundamente por ser homem bom e asseado, — que o sentiu. Um calor no fundo do peito, - como ferve, mãe, pensou, antes de cair redondo junto ao copo de água fresca que deixava, por previdência, ao lado da cama em caso de azia. Da sua última visão tem-se quase certo ­— pois morrera com o rosto ao seu lado, olhos bem abertos — que contemplara pela primeira vez a sola dos seus próprios sapatos.


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